

Egberto Santana
Publicado em 21 de agosto de 2026 às 15:13h.
Ricardo Geromel é empresário, palestrante e um dos maiores especialistas na China em atividade. Sua ligação com a região começou, em 2011, quando esteve à frente de um negócio que conectava jogadores e aspirantes a dirigentes ao futebol chinês. Depois, passou a fazer a ponte entre empresários e investidores brasileiros interessados em negócios com a China.
Hoje Geromel atua como cofundador da FCGI, empresa de consultoria com foco em conectar negócios de inovação no Brasil ao ecossistema da China. No dia 18 de agosto, ele lançou seu segundo livro, O Novo Poder da China, em que analisa como o país cresce rapidamente e se tornou uma potência global.
Em entrevista ao Na Prática, ele comenta que essa mudança não aconteceu por acaso. “Foi decisão, não acidente”, afirma.
Geromel atribui parte do avanço chinês à combinação de investimentos de longo prazo, formação massiva de engenheiros e uma cultura guiada pela mentalidade shígàn, de testar, fazer e corrigir rapidamente. Esse movimento, diz, já começa a redefinir também quais profissionais e competências serão mais valorizados no mercado de trabalho.
Confira abaixo a conversa de Ricardo Geromel ao Na Prática!
Na Prática: Temos acompanhado empresas chinesas se destacando em áreas como energia sustentável, robótica e IA. Como a China deixou de ser fábrica em escala e virou líder em inovação?
Ricardo Geromel: Isso foi decisão, não acidente. A China usou os anos de “fábrica do mundo” pra acumular capital, engenharia e escala e depois redirecionou isso com política industrial agressiva pros setores que chamo no livro de “novo três”: solar, baterias e carros elétricos.
Some a isso uma mentalidade que os chineses chamam de shígàn, fazer antes de teorizar, testar em escala industrial em vez de discutir em PowerPoint. O DeepSeek é o exemplo mais recente: não nasceu do nada, nasceu de uma década de investimento em engenheiros, dados e infraestrutura que ninguém via de fora.
Na Prática: Como a educação superior deu suporte a essa transformação?
Ricardo Geromel: A China formou uma geração de engenheiros em um volume que nenhum outro país conseguiu replicar. Não é só quantidade, é direcionamento: currículo colado em prioridade de Estado, forte em STEM, com pipeline que vai da universidade direto para a indústria e para a política industrial. É o oposto do modelo em que a universidade forma primeiro e o mercado absorve depois. Lá, o mercado já está desenhado quando o aluno entra na faculdade.
Na Prática: Que mudanças isso traz pro mercado de trabalho?
Ricardo Geromel: A robotização e a IA vão comprimir postos de trabalho repetitivos em manufatura, inclusive dentro da própria China, e ao mesmo tempo vão abrir demanda por gente que sabe operar, integrar e manter esses sistemas. Para o resto do mundo, o efeito é reorganização de cadeia produtiva. Os países vão brigar por posição em energia, semicondutores e dados, não só em mão de obra barata.
Na Prática: O que isso significa pro currículo das universidades, na China e no Brasil?
Ricardo Geromel: Menos teoria isolada, mais prática integrada com tecnologia real. O Brasil ainda forma muito bacharel generalista e pouco engenheiro aplicado a IA, robótica e energia. Se a universidade brasileira não aproximar o currículo da indústria de verdade, vai continuar formando gente qualificada para um mercado que não existe mais.
Na Prática: Quais profissões ganham relevância com IA, transição energética, biotecnologia e agronegócio?
Ricardo Geromel: Engenharia de IA aplicada. Não só ciência de dados teórica. Especialistas em baterias e armazenamento de energia, biotecnologia agrícola, e principalmente gente que sabe cruzar agronegócio com dados e automação. O Brasil tem vantagem gigante em agro e energia limpa, mas só captura valor se formar gente que integra essas áreas com tecnologia, em vez de exportar matéria-prima e importar know-how.
Na Prática: Pensando em quem está na universidade e se preparando para entrar no mercado de trabalho, a partir dessas transformações no mercado, quais habilidades você recomenda desenvolver?
Ricardo Geromel: Conhecimento técnico elevado em IA. Não precisa ser programador, precisa entender o suficiente pra tomar decisão com base na tecnologia, pensamento sistêmico e a tal mentalidade shígàn: colocar a mão na massa, testar rápido, corrigir rápido. Quem ficar só na teoria vai ficar para trás.
Também acrescentaria a capacidade de executar sem esperar o cenário perfeito e entendimento de geopolítica econômica, porque hoje carreira técnica sem noção de geopolítica é uma carreira incompleta.
Na Prática: Se você tivesse 20 anos hoje, que área olharia com mais atenção?
Ricardo Geromel: IA aplicada à indústria e ao agro, transição energética (incluindo baterias e rede elétrica) e biotecnologia. São as três frentes onde China e Estados Unidos estão brigando com mais intensidade e onde o Brasil tem matéria-prima e talento para entrar com força se parar de só vender commodity.
Na Prática: Por fim, qual seria a principal recomendação para alguém que quer se preparar para trabalhar em um mundo no qual China, Estados Unidos e outras potências disputam a liderança tecnológica?
Ricardo Geromel: Não escolha um lado por ideologia, escolha por competência. Estude os dois ecossistemas, entenda como cada um pensa tecnologia. A China, por exemplo, pensa execução e escala, enquanto os EUA pensam inovação disruptiva e capital de risco. A partir daí, construa uma carreira que saiba operar nessa tensão em vez de torcer por um dos dois lados.
Quer conhecer de perto a transformação tecnológica chinesa descrita por Geromel e como o país asiático está redesenhando diferentes áreas da inovação?
O Prêmio Na Prática Protagonismo Universitário levará cinco universitários, um de cada região do Brasil, para uma imersão de uma semana na China. Mas é bom correr, porque estamos nos últimos dias de inscrição.