

Redação Na Prática
Publicado em 14 de maio de 2026 às 18:20h.
Você estudou, se preparou, passou em um processo seletivo disputado, recebeu uma promoção ou foi elogiado publicamente. Mesmo assim, uma voz lá no fundo diz: “Será que eu mereço estar aqui?” Se essa situação parece familiar, você provavelmente já cruzou com a síndrome do impostor, aquela sensação silenciosa de que, a qualquer momento, alguém vai “descobrir” que você não é tão bom quanto parece.
Ou então chega o elogio do gestor no estágio, e o reflexo é automático: “Ah, não fiz nada demais…”
Uma pesquisa das psicólogas Pauline Clance e Gail Matthews — pioneiras no estudo do tema — estima que a síndrome do impostor atinge 70% dos profissionais bem-sucedidos em algum momento da carreira. O problema é que essa insegurança não fica confinada só à sua cabeça: ela influencia decisões como se deve se candidatar a uma vaga, se compensa posicionar em reuniões ou se vai mesmo negociar salário.
Nesta matéria, vamos contar o que está por trás da síndrome do impostor e como vencer essa sensação que é uma “trava” em tantas carreiras!
A síndrome do impostor foi estudada pela primeira vez na década de 1970 e não é considerada um transtorno, mas sim um padrão de comportamento ligado, muitas vezes, ao perfeccionismo.
Quem sofre com essa síndrome geralmente reage da seguinte forma: mesmo com provas da própria competência (boas notas, entregas elogiadas, aprovações), a pessoa sente que “deu sorte” ou que enganou alguém. Isso acontece porque existe uma dificuldade de internalizar o próprio sucesso.
O contexto atual só intensifica esse cenário:
Não à toa, pesquisas mostram que o problema é ainda mais forte em alguns grupos: um estudo da KPMG indicou que 75% das mulheres em cargos executivos já duvidaram da própria capacidade. Outra, publicada na revista BMC Psychology, mostra que a síndrome do impostor é um fenômeno percebido entre profissionais de alta performance.
Em alguns estudos analisados, a prevalência chegou a até 94% em determinados grupos. O fenômeno está frequentemente associado a ansiedade, estresse, depressão e sinais de burnout.
Não dá para “desligar” esse sentimento de um dia para o outro, mas é possível enfraquecer o impacto dele, com dicas que também têm a ver com inteligência emocional.
Se você depende só da memória, seu cérebro vai lembrar mais dos erros do que dos acertos.
Para combater isso, crie um arquivo para registrar tudo o que você alcançou durante a semana. Anote feedbacks positivos, metas superadas e problemas que você ajudou a resolver. Quando a insegurança bater, use esse registro como uma prova da sua capacidade.
Sentir que você não é bom o suficiente não significa que isso seja verdade. Quando esse pensamento vier, faça as seguintes perguntas para si próprio:
Na maioria das vezes, você vai perceber que a insegurança não tem base real. O que acontece é um desalinhamento entre e expectativa e alta cobrança.
Muita gente no início da carreira acredita que precisa entregar tudo perfeito, e boa parte da insegurança vem daí.
Entretanto, o que a maior parte dos gestores quer ver é você entregar no prazo, evoluir aos poucos e aprender com seus erros.
A revisão sem fim do que você já fez ou ficar fazendo horas extras para “compensar insegurança” costumam mais atrapalhar do que ajudar.
Estabeleça limites de tempo para suas tarefas e aceite que falhas fazem parte do processo de evoluir.
Esse é um clássico.
Alguém diz:
“Seu trabalho ficou ótimo”
E você responde:
“Imagina, nem foi difícil…”
Esse tipo de resposta reforça a sensação de impostor.
O que você vai fazer a partir de agora é simples: agradeça e ponto. Profissionais que duvidam de si mesmos costumam ignorar dezenas de elogios para focar em uma única crítica menor. Aprenda a assumir a autoria dos seus resultados.
Exemplo:
“Obrigado! Fico feliz.”
Alguns hábitos alimentam a síndrome do impostor sem você perceber. Um deles é o excesso de pedidos de desculpa. Em vez de dizer “Desculpa a demora para responder”, a troca por “Obrigada pela paciência no retorno” tira o tom de culpa e passa mais segurança.
Quer outro conselho? A comparação também merece atenção. Ao ver colegas crescendo no LinkedIn, é fácil esquecer que ninguém posta os próprios fracasso, que, aliás, são bem comuns.
A confiança no próprio trabalho não acontece de um dia para o outro, mas, à medida que você começa a reconhecer suas conquistas e ajustar sua forma de pensar, a síndrome do impostor perde força. E isso abre espaço para algo importante no início da carreira: ocupar oportunidades com mais segurança, sem precisar se sentir uma fraude o tempo todo.
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A escritora e empreendedora Daniela Arrais, sócia-fundadora da @contente.vc e autora do livro Para todas as mulheres que não têm coragem, viveu de perto o ciclo da síndrome do impostor.
Mesmo depois de conquistas ao longo da carreira, ela se pegava questionando: quem vai se interessar pelo que tenho a dizer? E se eu for um fracasso? A sensação, segundo ela, era a de que nunca estava pronta, de que faltava mais um curso, mais uma validação externa para, enfim, se autorizar a agir.
O que mudou, segundo ela, foi nomear o fenômeno: “Quando compreendi esse mecanismo, entendi também que precisava falar sobre ele. Porque nomear as coisas nos liberta e nos dá mais ferramentas para enfrentá-las.” Ao pesquisar e entrevistar outras mulheres para o livro, a escritora passou a olhar para suas próprias conquistas com mais generosidade.
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