
Egberto Santana
Publicado em 20 de março de 2026 às 16:05h.
“Queria muito escrever um livro, mas me perguntava: quem vai se interessar? Será que não é pessoal demais? E se for um fracasso?” Mesmo depois de várias conquistas profissionais, essas dúvidas rondavam a cabeça da escritora e empreendedora Daniela Arrais, sócia-fundadora da @contente.vc. Foi no meio de todas essas inseguranças que ela decidiu mergulhar no estudo do fenômeno conhecido como síndrome do impostor.
“A sensação era de que nunca estava pronta, de que faltava um curso, um detalhe, uma validação externa para que eu pudesse, finalmente, me autorizar a fazer o que quer que fosse”, disse ela em uma entrevista em 2025.

Arrais é autora do livro “Para todas as mulheres que não têm coragem”, em que compartilha sua experiência com a síndrome do impostor e como aprendeu a enfrentá-la. Sua trajetória ecoa a de muitas outras mulheres que, apesar de conquistas concretas, seguem sendo sabotadas por uma sensação persistente de insuficiência.
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A síndrome do impostor é um padrão psicológico marcado pela sensação constante de ser uma fraude, mesmo diante de resultados objetivos, reconhecimento externo e histórico de sucesso.
Quem vive essa experiência tende a:
Atribuir conquistas à sorte ou ao acaso
Minimizar competências e esforços
Sentir medo constante de “ser descoberto”
Acreditar que não merece o cargo que ocupa
Em mercados altamente competitivos — como o de grandes centros corporativos — essa percepção pode se intensificar, especialmente em momentos de promoção, transição de carreira ou aumento de responsabilidade.
De acordo com uma pesquisa feita pela KPMG e citada pela Forbes 75% das executivas já viveram a síndrome da impostora em algum momento da carreira. Segundo o estudo, a sensação tende a se intensificar em momentos de promoção ou de transição para novos cargos.
O fenômeno é marcado pela sensação de não merecer o sucesso, de precisar se provar todos os dias, ou de nunca estar pronta o suficiente. Ele aparece em pensamentos recorrentes de autossabotagem, como o medo de não corresponder às expectativas, a dúvida sobre a própria competência ou a crença de que conquistas se devem apenas à sorte.
Para muitas mulheres, isso pode significar viver sob a constante pressão de entregar mais do que o esperado, sem nunca se sentir realmente legítima no espaço que ocupa.
Essa dinâmica não só prejudica a confiança individual, mas também consome energia emocional e pode frear o avanço na carreira.
Daniela lembra que só começou a romper essa lógica quando percebeu que não estava sozinha: “O que mudou foi perceber que isso não era um problema só meu. Quando compreendi que esse mecanismo estava em jogo, entendi também que precisava falar sobre ele. Porque nomear as coisas nos liberta e nos dá mais ferramentas para enfrentá-las”.
Ao entrevistar outras mulheres para seu livro, ela encontrou força na troca de experiências: “Passei a olhar para mim e para minhas conquistas com mais generosidade, e a entender que muitas vezes somos maiores do que imaginamos”.
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A síndrome do impostor não é apenas um desconforto emocional. Ela pode frear decisões importantes e limitar o crescimento profissional.
Entre os principais impactos estão:
Recusar oportunidades por insegurança
Demorar para se candidatar a vagas
Trabalhar excessivamente para “compensar” uma suposta falta
Evitar exposição em reuniões e apresentações
Desenvolver sintomas de estresse e burnout
Dificuldade de internalizar elogios
Procrastinação
A síndrome do impostor não é fruto de uma mente frágil, mas de um sistema desigual. Segundo Daniela, ela é consequência de uma sociedade historicamente organizada por homens e para homens:
“Desde pequenas, aprendemos que meninos são valentes e ousados, enquanto meninas devem ser delicadas, comportadas, bonitas. Há estudos mostrando que meninas a partir de cinco ou seis anos já internalizam a ideia de que pertencem a um grupo inferior. Isso é brutal”, afirma.
Um artigo da Human Resources Professionals Association alerta que, mesmo quando mulheres criam conexões, se mostram resilientes e trabalham mais, ainda enfrentam discriminação, abusos de poder e disparidades salariais que impedem seu avanço. O cenário é ainda mais grave para mulheres negras, trans, lésbicas, bissexuais, imigrantes e de outras minorias.
“Quando acreditamos que a impostora é só uma fraqueza nossa, reforçamos a culpa e o isolamento. Mas quando entendemos que é estrutural, podemos começar a nos fortalecer, individual e coletivamente. É uma mudança de chave: não é você que não consegue dar conta, é o mundo que ainda insiste em te diminuir, em não te dar espaço”, diz Daniela.
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Se a síndrome do impostor tem raízes estruturais, também precisa ser enfrentada de forma coletiva. Mas há estratégias práticas que podem ajudar no dia a dia.
“É importante conversarmos com outras mulheres, compartilhar nossas dúvidas e inseguranças, porque a impostora se alimenta do silêncio. Quando a gente fala, quando escuta, percebemos que não estamos sozinhas. Isso já é meio caminho andado”, conta Daniela.
Trocas genuínas ajudam a normalizar inseguranças e fortalecer a autoconfiança.
“Eu mesma aprendi que ele não vai desaparecer. O que dá pra fazer é atravessá-lo. É uma aposta: a gente se joga e descobre que é mais capaz do que a gente imaginava”, recomenda.
“Enquanto os homens se candidatam a vagas atendendo apenas parte dos requisitos, as mulheres acreditam que precisam cumprir tudo à risca. É uma armadilha que nos paralisa. E a verdade é que já temos plena capacidade de ocupar qualquer espaço agora”, alerta.
Manter um “inventário de vitórias” ajuda a combater a distorção de percepção típica da síndrome do impostor. Anote resultados, feedbacks positivos, metas atingidas.
Estruturar metas claras e competências a desenvolver é uma forma objetiva de substituir insegurança por ação estratégica. Um PDI bem construído organiza prioridades, define desafios práticos e cria métricas reais de evolução.
Se a síndrome do impostor estiver impactando significativamente sua saúde mental, produtividade ou relacionamentos profissionais, buscar apoio psicológico pode ser fundamental.
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O que é síndrome do impostor?
É a sensação persistente de ser uma fraude, mesmo diante de conquistas reais. A pessoa acredita que seu sucesso é fruto de sorte e teme ser “descoberta”.
Quais são os sintomas da síndrome do impostor?
Autocrítica excessiva, medo de exposição, procrastinação, insegurança constante e dificuldade em aceitar elogios.
Afeta mais mulheres?
Pesquisas indicam alta incidência entre mulheres, especialmente em cargos de liderança, devido a fatores culturais e estruturais.
Como superar a síndrome do impostor no trabalho?
Criando redes de apoio, registrando conquistas, enfrentando o medo com ação prática e estruturando metas claras de desenvolvimento.