
Egberto Santana
Publicado em 16 de março de 2026 às 19:01h.
Assumir a primeira liderança costuma ser um marco importante na carreira. A promoção é, ao mesmo tempo, um reconhecimento e um salto de responsabilidade. De repente, você deixa de ser apenas um bom executor e passa a responder pelos resultados de outras pessoas.
Nesse momento, muitos profissionais carregam uma pressão silenciosa: a de não errar. Afinal, a reputação ainda está sendo construída e qualquer falha parece grande demais.

Mas a verdade é simples: todo líder vai errar em algum momento. O que realmente define a qualidade da liderança não é a ausência de erros, e sim como o líder reage quando algo dá errado.
Nos primeiros meses liderando uma equipe, é comum tentar provar competência o tempo todo. O novo gestor quer demonstrar segurança, tomar boas decisões e ganhar respeito rapidamente. Esse contexto cria uma expectativa implícita e autoimposta de perfeição.
O problema é que liderança envolve lidar com variáveis humanas: conflitos, decisões incompletas, mudanças de prioridade e erros de avaliação. Ou seja, a incerteza faz parte do trabalho.
Quando algo sai errado, como uma uma decisão precipitada, um feedback mal conduzido ou um projeto que fracassa, o medo imediato costuma ser perder autoridade diante do time. No entanto, pesquisas em comportamento organizacional mostram que equipes não esperam líderes perfeitos. Elas esperam líderes confiáveis.
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Um erro de liderança raramente afeta apenas resultados. Muitas vezes, o impacto maior acontece na relação com a equipe.
Segundo reportagem da Exame, baseada nas análises do psicólogo organizacional e autor David Burkus, a confiança é o alicerce das equipes de alta performance. Quando ela é rompida, o problema não se resolve apenas com um pedido de desculpas.
Burkus explica que a confiança funciona como um ciclo baseado em expectativas, ações e consistência. Quando um líder falha, seja com uma decisão injusta ou ignorando a equipe, esse ciclo é quebrado.
Dados citados pela mesma reportagem, com base em pesquisas do neurocientista Paul Zak, mostram o impacto concreto desse fator: equipes que trabalham em ambientes de alta confiança relatam 74% menos estresse e até 50% mais produtividade.
Ou seja, quando um erro de liderança abala a confiança do time, o efeito pode ser profundo. A boa notícia é que ela também pode ser reconstruída, desde que o líder esteja disposto a fazer o trabalho necessário.
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Para David Burkus, recuperar a confiança da equipe exige mais do que boas intenções. O processo passa por quatro atitudes fundamentais.
O primeiro passo é reconhecer claramente o que aconteceu. Isso significa evitar justificativas ou minimizar a situação. Em vez disso, o líder deve demonstrar que entende o impacto do erro, tanto nos resultados quanto na experiência da equipe.
Quando um gestor assume responsabilidade de forma transparente, ele transmite maturidade e integridade.
Ao invés de só prometer que “vai melhorar”, é preciso reconstruir a confiança acontece fazendo a equipe ser parte da solução, ao revisar processos, discutir aprendizados e ouvir sugestões do time.
Quando as pessoas são incluídas nesse processo, a recuperação da confiança deixa de ser apenas uma promessa.
A confiança não é restaurada por discursos. Se o erro aconteceu porque o líder não escutava a equipe, por exemplo, a mudança precisa aparecer em decisões futuras. A equipe precisa perceber que o aprendizado virou prática.
Sem essa transformação visível, qualquer pedido de desculpas perde credibilidade.
Reconstruir confiança é um processo gradual. Pequenas atitudes repetidas — cumprir promessas, manter coerência e agir com transparência — fazem com que o “ciclo da confiança”, descrito por Burkus, comece a se restabelecer.
Em outras palavras: não existe atalho para recuperar confiança.
Além de reconstruir a confiança depois do erro, líderes também precisam aprender a reagir bem no momento em que algo dá errado.
A Exame também destaca o método WISER, desenvolvido em pesquisas ligadas à Universidade Harvard, que ajuda profissionais a lidar com situações de pressão sem reagir de forma impulsiva.
O modelo propõe cinco etapas simples.
O primeiro passo é observar o que está acontecendo, tanto na situação quanto nas próprias emoções. Em momentos de crise, o impulso natural é reagir imediatamente. O método propõe fazer o contrário: pausar e perceber o contexto com clareza.
Depois da observação, é hora de interpretar o que está acontecendo. Isso significa separar fatos de suposições. Muitas vezes, a primeira leitura de um problema é emocional e incompleta.
Com uma interpretação mais racional da situação, o líder escolhe a resposta mais adequada. Aqui entra uma habilidade central da liderança: decidir com consciência, e não por impulso.
Somente então vem a ação. Nesse estágio, o líder já passou pelo filtro de reflexão e tende a agir de forma mais estratégica, seja conduzindo uma conversa difícil, corrigindo um processo ou reposicionando a equipe.
O último passo é refletir sobre o que aconteceu. O objetivo é transformar a experiência em aprendizado para situações futuras, algo essencial para o desenvolvimento da liderança.
A primeira liderança é um período intenso de aprendizado. Erros acontecem porque o papel exige novas competências: tomar decisões com informação incompleta, gerenciar conflitos e equilibrar expectativas de diferentes pessoas.
A diferença entre um líder que evolui e outro que estagna não está em evitar erros a qualquer custo, mas em transformá-los em aprendizado.
Assumir responsabilidades, reconstruir confiança e desenvolver inteligência emocional são processos que moldam lideranças mais maduras e equipes mais fortes.
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