O que é overemployed, seus riscos e quando compensa

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Egberto Santana

Publicado em 6 de maio de 2026 às 11:33h.

Imagine multiplicar seu salário por dois ou até mesmo por três, ao mesmo tempo em que tenta equilibrar as demandas de mais de um emprego sem que ninguém saiba. Essa é a realidade de quem pratica o overemployed, uma tendência que ganhou força com o trabalho remoto e que atrai milhares de pessoas com a promessa de ganhar mais, mas que ao mesmo tempo esconde uma série de armadilhas.

O overemployed, também conhecido pela sigla OE, é uma prática que surgiu entre profissionais de tecnologia que perceberam que dava para entregar dois (ou mais) trabalhos ao mesmo tempo. A lógica é simples: ser contratado para mais de um emprego com poucos desafios, equilibrá-los ao longo do dia e receber mais de um salário.

Essa estratégia foi tão disseminada que conta com fóruns e comunidades online inteiras dedicadas a ensinar como equilibrar duas agendas sem que — supostamente — nenhum dos empregadores perceba.

Mas o overemployed é polêmico, e os riscos são reais. Se de um lado está o aumento da renda, do outro estão demandas que se acumulam, prazos e compromissos que inevitavelmente vão dar conflito e dificuldade de criar qualquer senso de pertencimento com empresas das quais você faz parte. Sem falar na sobrecarga que, cedo ou tarde, aparece.

Nesse artigo, vamos explicar o que é overemployed, por que virou tendência e quais são os riscos para a carreira e para a saúde mental.

O que é overemployed?

Overemployed é quando um profissional mantém dois ou mais empregos em tempo integral ao mesmo tempo, geralmente sem que as empresas saibam. Esse modelo ficou mais viável com o avanço do home office, já que elimina deslocamentos, facilita a gestão simultânea de demandas e permite que a pessoa esteja “à disposição” de mais de uma empresa ao longo do dia.

É mais comum entre profissionais de tecnologia, que trabalham para empresas diferentes — muitas vezes internacionais — e organizam suas entregas de forma a dar conta dos diferentes trabalhos.

Uma pesquisa realizada pelo site de empregos Monster, em 2023, com quase 1.000 trabalhadores cadastrados na plataforma, mostrou que 37% dos entrevistados admitiam ter mais de um emprego em tempo integral. Para aqueles com apenas um emprego, 57% dos respondentes consideravam ter outro.

A mesma pesquisa também questionou os usuários sobre o tempo dedicado ao trabalho. Um em cada cinco entrevistados afirmou que, no emprego principal, não tinha demandas suficientes para ocupar toda a jornada, o que abriu espaço para assumir outras atividades. Já cerca de um terço dos profissionais que adotaram o overemployed disse que aumentou a carga de trabalho com o objetivo de desenvolver novas habilidades em áreas diferentes.

Vantagens do overemployed

A popularidade do modelo não é por acaso. Ele atende a desejos muito claros, especialmente entre jovens profissionais. Veja abaixo alguns deles.

Acumular renda mais rápido

A principal motivação é financeira. Ter mais de um salário pode acelerar objetivos como:

  • sair da casa dos pais
  • quitar dívidas
  • construir reserva de emergência
  • investir ou empreender

Arrumando um emprego em mercados com salários dolarizados, como o de tecnologia, isso pode significar ganhos muito acima da média brasileira.

Riscos e desvantagens do overemployed

Se a parte financeira parece sedutora, os riscos são frequentemente subestimados. Confira abaixo os principais:

Exaustão e burnout

A ideia de “trabalhar pouco e ganhar muito” raramente se sustenta no longo prazo. Conciliar dois empregos exige:

  • jornadas extensas (muitas vezes acima de 10–12 horas/dia)
  • mudanças constantes de contexto
  • pressão por entregas simultâneas

Relatórios do próprio Glassdoor mostram que as menções à palavra “burnout” nas avaliações da plataforma cresceram 32% em um ano e estão no nível mais alto desde 2016 — 50% acima do registrado antes da pandemia.

Para quem pratica o overemployed, esse risco é ainda maior: gerenciar duas agendas, dois conjuntos de demandas e dois conjuntos de expectativas sem que ninguém perceba é uma pressão que, cedo ou tarde, causa estresse elevado e aparece na saúde mental.

Risco de demissão

Quem opta pelo overemployed também corre risco real de demissão. No dia a dia, os sinais aparecem antes do que se imagina: não responder mensagens porque está focado nas demandas do outro emprego, confundir nomes, projetos ou contextos entre as empresas ou ter reuniões importantes marcadas no mesmo horário, precisando escolher de qual vai participar.

Além disso, muitas empresas incluem cláusulas de exclusividade ou exigência de dedicação integral nos contratos. Descumprir essas condições pode caracterizar justa causa no regime CLT, com perda de todos os direitos trabalhistas. Para quem atua como PJ, o risco é diferente, mas igualmente sério: rescisão imediata do contrato, sem seguro-desemprego ou qualquer proteção.

Queda de produtividade e estagnação

Mesmo quando não há demissão, existe um efeito tão grave quanto: a carreira pode travar. Dividir atenção entre diversos empregos tende a gerar entregas medianas no lugar de excelentes e menos envolvimento nos projetos.

Mas o problema vai além da qualidade das entregas. Muitas empresas consideram a adesão à cultura organizacional um critério tão importante quanto a performance na hora de reconhecer ou promover um profissional. No overemployed, com a atenção dividida, esse vínculo raramente se desenvolve, e o profissional corre o risco de ficar estagnado no mesmo estágio da carreira por anos, mesmo sendo tecnicamente competente.

Ou seja, você pode ganhar mais no curto prazo, mas abrir mão justamente das condições que levariam a um crescimento real no longo prazo.

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Quando o overemployed pode compensar?

Apesar dos riscos, há cenários em que o modelo pode fazer sentido, desde que com consciência dos limites.

Ele tende a funcionar melhor quando:

  • os trabalhos são assíncronos e com baixa sobreposição de reuniões
  • há autonomia real nas entregas
  • o profissional já tem alta senioridade
  • o objetivo é temporário (exemplo: juntar dinheiro por alguns meses)

Mesmo assim, especialistas alertam: transformar isso em estilo de vida contínuo é o que mais aumenta os riscos, especialmente de burnout.

Afinal, vale a pena aderir ao overemployed?

Antes de aderir ao overemployed, vale entender qual é o seu objetivo e, principalmente, qual é a sua tolerância.

A prática pode funcionar de uma forma pontual para acelerar ganhos financeiros em um momento específico da vida. Mas dificilmente se sustenta no longo prazo sem cobrar um preço, seja na saúde mental, seja na carreira.

Vale também distinguir duas situações que muita gente confunde. Ter múltiplas fontes de renda — como freelas, projetos paralelos ou consultorias — é diferente de manter dois empregos full-time sem que nenhum dos empregadores saiba.

No fim, o overemployed não é exatamente uma solução, mas uma troca: mais dinheiro agora em troca de energia, foco e, muitas vezes, bem-estar. Saber se essa troca vale depende de cada pessoa. Assim, antes de entrar nessa, vale se perguntar: o ganho financeiro compensa o custo invisível?

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