

Denise Gabrielle
Publicado em 23 de outubro de 2026 às 15:47h.
Marcar de sair com João Luis Freitas exige um pouco de planejamento. Mesmo aos domingos, o estudante de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e recém-coroado vencedor nacional do Prêmio Na Prática: Protagonismo Universitário 2026 mantém uma rotina organizada, dividida entre os estudos, trabalho, relatórios, plantões e amigos.
Quem conhece bem esse hábito é Marcos Antônio de Oliveira Júnior, melhor amigo de João desde o ensino médio. Os dois cresceram em Goiânia, seguiram caminhos acadêmicos diferentes e, anos depois, voltaram a se encontrar em São Paulo.
Ao longo de aproximadamente 15 anos de amizade, Marcos tem acompanhado a trajetória do amigo, marcada pelo interesse por diferentes áreas do conhecimento e por decisões que nem sempre seguiram o caminho mais convencional.
Uma delas foi começar Medicina depois de estudar Engenharia no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e concluir um mestrado em Ciência de Dados e Matemática Aplicada na École Polytechnique, na França.
Hoje, aos 28 anos, João é fundador da Health Data Brasil, startup que processa dados públicos do Sistema Único de Saúde (SUS) para desenvolver pesquisas médicas. Esse projeto o levou ao título de vencedor nacional do Prêmio Na Prática 2026, anunciado na terça-feira, 20 de outubro, em São Paulo.
A cerimônia reuniu pessoas que acompanharam diferentes etapas de sua vida, entre elas os pais, Luiz Antônio e Maria de Fátima, e o melhor amigo, Marcos.
O interesse de João pelos estudos começou ainda na infância. Maria de Fátima dos Reis, mãe do estudante e professora, conta que ele demonstrava uma curiosidade incomum desde pequeno, que ia além dos livros da escola. Tanto que aos dez anos ele participou de um programa chamado Aprender a Pensar, na PUC-Goiás.
Depois, aos 15 anos, o filho passou a frequentar semanalmente o departamento de Matemática de uma universidade.
“Havia um departamento de Matemática e um professor chamado Orizon, que tinha interesse em trabalhar com crianças com características como as dele, e o João passou a frequentar a universidade uma vez por semana.”
Anos depois, essa facilidade com os números continuaria chamando a atenção dos colegas. No ensino médio, João participava de turmas preparatórias para as olimpíadas científicas em Goiás, onde conheceu o amigo Marcos.
“Ele era especialista em tudo! Mas, além disso, era um cara de coração muito bom, muito humilde e acessível. Você podia conversar com ele sobre qualquer besteira, dançar forró com ele…”, recorda.
Marcos tinha o costume de acompanhar a divulgação dos resultados para ser o primeiro a levar boas notícias aos colegas. Em uma das edições da Olimpíada Goiana de Matemática, descobriu que João havia conquistado o primeiro lugar e correu para contar a novidade. A primeira reação do amigo, porém, foi perguntar como o próprio Marcos havia se saído. Somente após saber que o amigo havia ficado em quarto lugar é que João começou a comemorar.
Atualmente, Marcos é empreendedor e mora em São Paulo, assim como João. Além de já ter oferecido uma oportunidade de estágio ao amigo, mantém com ele uma relação próxima fora do ambiente profissional: o vencedor do Prêmio Na Prática 2026 será seu padrinho de casamento, previsto para 2027.
A trajetória acadêmica de João também foi marcada por um caminho pouco linear. Após estudar com bolsa durante o ensino médio, o jovem iniciou o curso de Engenharia no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e foi contemplado com a bolsa Eiffel, concedida pelo governo francês, para continuar sua formação na tradicional École Polytechnique, na França.
Após João concluir o mestrado em Ciência de Dados e Matemática Aplicada, a grande mudança de sua trajetória aconteceu durante a pandemia. De volta ao Brasil, decidiu que queria começar uma nova graduação. Desta vez em Medicina. A escolha tinha relação com um interesse que já vinha desenvolvendo: aproximar tecnologia e saúde.
A decisão exigiria mais anos de formação. “Ele poderia ter ido trabalhar em qualquer big tech, ganhando um excelente salário, mas entendia que queria algo diferente, um projeto de longo prazo”, reflete Marcos.

A combinação entre tecnologia e Medicina ganhou forma no desenvolvimento da startup Health Data Brasil. Nela, João e seus colaboradores desenvolveram uma infraestrutura capaz de processar mais de 10 terabytes de dados do DataSUS, com registros anonimizados de cerca de 200 milhões de pacientes. A tecnologia permite trabalhar com um volume de informações que seria inviável processar em um computador convencional.
A ideia surgiu quando ele começou a acessar tabelas disponibilizadas pelo governo federal por meio do TabNet. Para facilitar a coleta, criou uma ferramenta capaz de automatizar o acesso às páginas e reunir os dados para análise.
A Health Data já apoia pesquisas sobre diferentes tipos de câncer e desigualdades no acesso à saúde. Entre os trabalhos citados pelo estudante estão estudos sobre cirurgia valvar, nefroblastoma e retinoblastoma, além de análises que relacionam fatores socioeconômicos e condições ambientais a indicadores de saúde.
Parte dessas pesquisas já foi apresentada em congressos científicos, enquanto outras seguem em desenvolvimento. O projeto, no entanto, não nasceu com toda essa estrutura. Luiz Antônio Freitas, de 67 anos, pai do estudante, se recorda de quando ouviu o filho falar sobre a ideia pela primeira vez e questionou a dimensão do desafio que ele pretendia assumir.
“Meu filho, isso é coisa de louco!”, reagiu. João, então, respondeu: “Mas é isso que eu quero fazer”.
Para Luiz, essa conversa é mais um exemplo da determinação que acompanha o filho desde cedo: “Ele sempre gostou de desafios, sempre foi muito determinado em tudo o que quis fazer.”
A rotina de João reúne a graduação em Medicina; o trabalho com a Fundação Zerbini, no Instituto do Coração (InCor); e o desenvolvimento dos projetos de pesquisa relacionados à Health Data.
Apesar dos muitos compromissos, quem convive com o estudante destaca características que vão além de sua dedicação acadêmica. Para os pais e o melhor amigo, a generosidade, a humildade e o cuidado com as pessoas são aspectos importantes de sua personalidade.
Mas Maria de Fátima também reconhece no filho uma característica que nem sempre é evidente para quem conhece apenas sua trajetória acadêmica: a dificuldade de falar sobre as próprias realizações.
“Às vezes, quem está de fora não percebe uma pontinha de timidez que ele tem, principalmente quando precisa falar sobre si mesmo. Quando o assunto é ele, demonstra uma humildade que impressiona qualquer um.”
Apesar da trajetória acadêmica e dos resultados alcançados, João enfrentou uma dificuldade que Marcos considera importante em seu desenvolvimento profissional: comunicar o valor do próprio trabalho.
O amigo relata que, em processos seletivos, João nem sempre conseguia demonstrar a dimensão das experiências que havia acumulado. “Ele falava sobre as coisas que fazia, mas apresentava tudo num nível muito abaixo do que realmente era”, conta Marcos.
A participação no Prêmio Na Prática: Protagonismo Universitário exigiu justamente que João apresentasse seu projeto e explicasse seus resultados ao longo das etapas de seleção.
Marcos acompanhou parte desse processo e conversou com o amigo na semana anterior à cerimônia. Ao assistir ao vídeo preparado por João, confessou: “Eu achei lindo o vídeo que ele gravou! Nossa, falou tão bem! Que orgulho!”

A classificação de João entre os finalistas do Prêmio Na Prática não foi acompanhada em detalhes pela família. Luiz Antônio conta que o filho avançava nas etapas da seleção sem compartilhar muitas informações.
Oito dias antes da cerimônia, João contou ao pai que estava entre os 15 finalistas e explicou melhor o projeto desenvolvido. Também aproveitou para convidar os pais a viajarem a São Paulo e acompanharem a premiação no auditório.
Na cerimônia, João foi anunciado primeiro como vencedor da região Sudeste. O pai conta que já estava satisfeito com esse resultado, especialmente depois de conhecer os projetos dos demais participantes.
“Quando ele ganhou o prêmio do Sudeste, eu falei: ‘Está excelente! Ótimo, parabéns!’ E, quando ele recebeu o prêmio nacional, fiquei muito emocionado”, relembra Luiz Antônio.
Para Marcos, a conquista representa o reconhecimento de uma trajetória que ele acompanha desde as Olimpíadas de Matemática. O amigo acredita que o Prêmio também pode abrir novas oportunidades para a Health Data Brasil.
Maria de Fátima também se emociona ao falar do propósito que enxerga no trabalho do filho. “Quando ele fala das pesquisas que desenvolve, justamente para ajudar na questão do SUS, eu penso: ‘É grandioso’. Um menino de 28 anos que pensa na melhoria não só da rede privada, mas também da pública.”
Para a mãe, o significado desse trabalho está diretamente relacionado à preocupação de João com quem depende dos serviços de saúde. “Ele enxerga no outro a necessidade de ter um bom atendimento, de ter um tratamento de ponta.”
É essa dimensão humana que Maria de Fátima reconhece na trajetória do filho e que torna a conquista nacional ainda mais significativa para ela.
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